ANGÚSTIA

            Em “O ser e o nada” Sartre elabora a ideia de que as coisas no mundo existem com um objetivo, um sentido que as transcende, a mesa serve de apoio para coisas, e esse objetivo é alheio a ela, a mesa foi feita pra isso e mesmo após a mesa perecer essa função ainda será desempenhada por outras mesas. Tudo no mundo tem essa essência que o transcende EXCETO O SER HUMANO. O ser humano é caracterizado pela consciência que tem e que pode apreender as coisas, os seres do mundo. A consciência só existe como consciência de algo, ela não é, a menos que tenha um ser para apreender. Daí o título do livro, o ser é tudo que há no mundo e o nada é a consciência do ser humano.

            Sartre coloca que o ser humano é uma consciência intencional, e está sempre livre para decidir o que vai fazer. Esse nada que é sua consciência só aparece juntamente com o ser humano, e nos aparece como liberdade, não há diferença entre o ser do homem e o ser livre. Na liberdade o ser humano é seu próprio passado e seu devir, sob forma de nadificação. O ser humano se situa frente a seu passado e seu futuro como sendo este passado e futuro (ou um projeto de futuro), mas ao mesmo tempo também como não sendo, pois é separado do passado e do futuro pelo seu nada, pela sua consciência.

            A sensação diante da liberdade é a angústia, ou melhor, a angústia é o próprio modo de ser da liberdade, já que somos livres, somos angústia. Angústia é a liberdade em nosso ser se colocando em questão. Angústia é uma espécie de medo, mas sem objeto específico, o soldado fica com medo ao ser bombardeado, mas ao pensar em suas possibilidades de atitude e reação frente ao bombardeio, o medo dará lugar à angústia, pois mesmo sendo bombardeado ele tem algumas escolhas a fazer, a liberdade implica também uma responsabilidade, daí a angústia. Uma situação que ameaça minha vida de fora causa medo, mas na medida em que começo a desconfiar da adequação das minhas reações, o medo dá lugar à angústia.

            A angústia acontece porque as ações só são possíveis, e mesmo que haja muitos motivos para realizar qualquer ação, percebemos que os motivos são insuficientes para PRODUZIR a ação, a angústia é a consciência de ser o próprio devir, de ser também as consequências da liberdade, sejam elas boas ou ruins, é a consciência de se responsabilizar que causa a angústia.

            Sartre ainda usa o conceito de má fé para caracterizar a situação em que o indivíduo utiliza-se de alguma justificação exterior a ele para explicar suas situação, como se este não pudesse ter escolhido diferente. A má fé é uma forma de abrir mão da própria liberdade, pois assim também se abre mão da responsabilidade. Quantos de nós já não culpamos pais, amigos, parceiros e outros por situações que, mesmo eles nos influenciando, tínhamos escolha? É precisamente essa a má fé.

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