Querer o impossível

Você quer o que não pode ter. Ninguém tem a pretensão de participar da seleção brasileira de futebol depois dos 50, ou de ganhar o Miss Brasil com a mesma idade.

A gente quer o que é difícil e louvável, mas tangível. A gente desconsidera um futuro quando não acredita na mais remota possibilidade. E desacredita aqueles que gostariam de buscar algum sonho que beire o impossível. Dentre os mais tristes exemplos estão familiares e filhos.

O desprezo pelo que não se pode ter adquire caráter de formação reativa, um ódio pelo que na verdade muito se quer. E há grande apreço pelo que se acredita poder alcançar. Desprezamos um corpo sarado quando passamos dos 60, e desprezamos a arte quando somos muito melhor em um trabalho repetitivo. Em parte isso pode  até ser positivo, já que não faria bem nenhum cobiçar o impossível.

O problema é que a neurose está aí, onde se despreza, porque o desprezo no fundo esconde um desejo. Talvez um desejo de recuperar o corpo jovem e forte, ou de conseguir encantar as pessoas cantando e tocando violão. E quando o desejo é muito forte e conflitivo com a limitação que o mundo nos impõe, aí sim tempos a sintomatização, que por vezes ultrapassa o pessoal e afeta a sociedade como um todo.

O maior exemplo das duas coisas hoje é o desprezo pela elite intelectual e o louvor à elite financeira, por parte da classe média brasileira. Em outras palavras, a neurose da vez é acreditar que pode ficar rico (mesmo ganhando mal e dirigindo uber pra complementar a renda) e sentir ódio da elite intelectual, já que não se acredita na possibilidade de investir a vida em estudos e aquisição de conhecimento.

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