Essa tal felicidade

Há um projeto de felicidade ingênuo que tenta vender a ideia de que é possível viver em estado de grande alegria intrínseca, e que o otimismo, vitalidade e resiliência formam um conjunto que dá alegria de viver. Dentro desse modelo de sucesso, de alegria de viver, de bem estar, há a ideia de que se pode ter uma vida plena, equilibrada e feliz em todos os âmbitos, como amor, carreira, estudos, saúde, corpo, etc.

Entretanto, cientificamente falando, não há neuroimagem, exame médico ou descrição psicológica que defina bem o que é a felicidade, ou o que diga objetivamente a felicidade quando acontece, ou que permita demonstrar quando alguém está absolutamente feliz. O que existe é uma concepção mais intuitiva de felicidade. As pessoas conseguem apontar quem está mais ou menos feliz, e quem parece ter maior ou menor grau de satisfação na vida a partir de alguns dados sensíveis.

EU QUERO É SER FELIZ

A busca pela felicidade é algo relativamente novo. A felicidade antes não carregava tanto essa noção de satisfação pessoal ou de prazer hedonista, mas sim de cumprir com determinados papeis na vida, como assumir os negócios da família, criar os filhos, casar e cuidar do cônjuge, etc. Felicidade em Inglês, happyness, vem de acontecer, happen, e o mesmo ocorre em muitas outras línguas, o português é uma exceção. A felicidade, no passado, na tradição ocidental, estava ligada àquilo que acontece com você, basicamente à sorte. Do latim, felicidade, usada no português, vem da palavra fortuna que também pode significar fartura, segurança e saúde.

O conceito de felicidade hoje é bem novo quando se olha pra história. Hoje a felicidade é algo que depende muito mais das condições internas, é a felicidade como o joie de vivre, a alegria de viver, uma capacidade interna do sujeito de usufruir das coisas. Assim a felicidade deixa um pouco o campo político ou sociológico e passa para o domínio individual, psicológico, no sentido de que o indivíduo é visto como capaz de gerar a própria felicidade, e a felicidade é um tanto imune às vicissitudes da vida.

Na Grécia antiga a felicidade em tempos teológicos estava relacionada ao humor dos deuses e à fartura. Com a filosofia surge a felicidade também como um estado interno e imune às vicissitudes da vida, mas na filosofia antiga ela estava ligada à virtude, bons atos, firmeza de caráter e serenidade. Antes a noção de felicidade não estava relacionada, como concebido hoje, a um gozo, uma satisfação ou estado de bem estar interno.

Até mesmo a felicidade como ideal é uma coisa nova, em boa parte da história humana o ideal de vida era dar conta das demandas externas e atender a expectativas, sem necessariamente ter um gozo ou um prazer em viver. O prazer ia e vinha e os indivíduos não tinham essa característica de busca-lo tão ativamente, hoje, em geral, a felicidade é a prioridade. Após a década de 60 é que se tem as novas concepções de satisfação interna ligadas à felicidade, distanciando-se do trabalho, daquela concepção vitoriana de felicidade como sacrifício, ou como poupança.

Nos anos 80 a felicidade compete com o conceito de sucesso. O conceito de sucesso surge com a ideia de excelência, superação e destaque, e isso passou a ser o ideal por um tempo. Essa noção constitui algo que está relacionado à felicidade, que talvez, traga alguma felicidade, mas que não se confunde com ela. Foi quando os pais começaram a desejar que seus filhos tivessem muito sucesso na profissão, muito destaque, mas não necessariamente uma profissão específica que proporcionasse muito dinheiro. O desempenho e o destaque foi o mais importante por um tempo, e quem viveu a juventude nessa época há de se lembrar.

PSICOLOGIA POSITIVA

É uma área da psicologia congruente com o novo espírito, uma psicologia que busca estudar os preceitos de todos os tempos e lugares sobre a felicidade. Com base em experimentos alguns americanos chegaram a alguns preceitos que melhoravam a condição de felicidade e bem estar como o perdão, dedicar-se, trabalhar, ter amigos, doar, etc.

Foi concluído com os estudos que as pessoas que seguiam estes preceitos apresentavam uma maior satisfação, eram mais felizes. Eles também estudaram pessoas que já se apresentavam mais felizes em busca de listar e mensurar o que essas pessoas faziam, o que os levou a essas atitudes. Nota-se que são atitudes genéricas, é bom perdoar, dedicar-se a algo, trabalhar, ter amigos e doar quando puder, mas nada disso é tão indispensável assim para a felicidade.

A curva normal da felicidade mostra que há pessoas que estão quase sempre em condição de bem estar, e esses são minoria, uma minoria de sortudos talvez. Poderia ser dito até que são pessoas que nem sabem bem o que é a felicidade, pois se soubessem, perceberiam que não são tão felizes o tempo todo e que isso é impossível. De qualquer forma há pessoas que atribuem a si mesmas maior ou menor grau de felicidade. E há o outro extremo que são pessoas que estão sempre melancólicas e precisam muito de apoio para se sentirem bem.

No meio da curva – a maioria das pessoas – estão os que se sentem mais ou menos felizes, e pesquisas sugerem que as variações se dão com a idade. Em geral pessoas da média se sentem menos felizes entre os 20 e 40 anos, e mais felizes pelos 14~18 anos e pelos 50~70 anos. Isso significa que a felicidade pode ser aprendida, que algumas pessoas, ao longo da vida, conseguem ser mais felizes.

O bem estar é uma conquista para a maior parte da população, e ele pode ser aprendido!

MAS O QUE É A FELICIDADE ENTÃO? HÁ ALGUMAS POSSÍVEIS TENTATIVAS DE RESPONDER A ESSA PERGUNTA…

FELICIDADE É ESTAR EM HARMONIA COM O MEIO EM QUE ESTÁ INSERIDO?

É importante retomar o conceito de vida aqui. Na definição sobre o que é a própria vida é necessário ir além das composições químicas, do carbono, etc. Para pensar um pouco fora da caixa, poderia ser encontrado outros seres vivos em galaxias distantes que não obedecem às nossas leis físico-químicas. Os seres “estranhos” vivos que podemos encontrar são considerados vivos se eles tiverem algum tipo de interação com o meio, e o fizerem em busca de uma certa homeostase.

O que nos diz que algo está vivo é quando essa coisa está fazendo algum esforço contra o meio. Seres inanimados como uma pedra estão de certo modo integrados com o meio, mas os vivos não, a vida é um estresse, uma tensão, um esforço contra o meio (o meio que conspira contra a vida). Assim o ser vivo se debate por todos os meios que possuir, a vida é, em última análise, uma luta contra a morte.

Essa concepção de vida é importante para contrapor a ideia de que estar feliz é estar em harmonia com o meio em que se encontra, na verdade não há essa harmonia com o meio. Mesmo na cultura há impasses estruturais sobre a economia e distribuição de recursos. A harmonia que se imagina não está dada estruturalmente no conceito de vida. A vida é intrinsecamente voltada para a luta, e não para a harmonia ou felicidade, há sempre uma ameaça, e por isso um gasto e um esforço na vida.

FELICIDADE É SENTIR PRAZER?

Sendo o desprazer um acúmulo de tensão, e o prazer o alívio desta tensão. O prazer pleno e constante não pode existir, é necessário o acúmulo de tensão para que se tenha o alívio. Tudo que é prazeroso no fim das contas é temperado com desprazer. Tomando o sexo como um exemplo, quando há acúmulo de tensão há aumento de excitação, e se essa excitação não for devidamente aliviada não haverá muito prazer. Há diferenças entre os sexos, e isso talvez seja notado de forma mais dramática nos homens quando se aproximam de um orgasmo, nesse caso cessar a estimulação antes do orgasmo em geral traz enorme desprazer, logo se conclui que atingir esse estado antes do orgasmo não é por si só prazeroso. Prazer e desprazer coexistem e se intercalam cronologicamente, e é só assim que dá pra ser.

FELICIDADE É SACIAR OS DESEJOS?

A consciência é o que torna humano, ela é o princípio da realidade, é o que faz adiar a saciação de um desejo, adiar o prazer para evitar outros desprazeres. Os seres humanos passam, em função da sua organização social, boa parte do tempo fazendo o que não queriam fazer e deixando de fazer o que queriam fazer, e isso para garantir alguns prazeres no futuro. É necessário abrir mão de muitas coisas em função do futuro. É necessário fazer tudo isso para conviver em sociedade, mas é também isso que torna as pessoas neuróticas, e quando essa consciência é muito grande, pode levar até à paranóia.

A necessidade de convívio faz o ser humano poupar, fazer o que não quer, e deixar de fazer o que quer, para conseguir um pouco de segurança e alguma possibilidade de realização de alguns prazeres por um tempo maior.

A FELICIDADE ESTÁ NA RELAÇÃO COM O OUTRO?

Em geral há um conflito entre amor e ódio. Os relacionamentos exigem proximidade e distância em medidas variáveis de pessoa para pessoa e de momento para momento. Pessoas que gostam de mais distância podem ser vistas como frias, e as que gostam de menos distância, como dependentes.

Até o trabalho precisa ser mais ou menos desafiador em cada período da vida e para cada pessoa de forma diferente. Pessoas que gostam de mais desafio podem ser vistas como ambiciosas e as que não gostam, como preguiçosas.

Desde bebê o ser humano convive com esse tipo de ambivalência até mesmo da própria mãe para com ele, há na mãe a felicidade em simplesmente estar na presença do bebê e às vezes a frustração do enorme trabalho que tem com o cuidado dele.

Todos conhecem a frase “o inferno é o outro”, mas também não pode haver paraíso sem o outro. E o outro só é o inferno quando se percebe o quanto não é possível de controla-lo.

A condição de vida é estar em constate luta com o meio; o prazer só existe temperado com desprazer; a organização social exige que em boa parte do tempo se faça o que não quer e que não se faça o que quer; e as relações são complexas e marcadas pela ambivalência.

Esses 4 obstáculos se mostram na interação com os desejos, e em geral os desejos, ou são impedidos por esses obstáculos, ou são realizados, mas de forma insuficiente ou entediante. O ser humano sofre com uma espécie de HABITUAÇÃO em nível biológico e psicológico. O desejo ilumina o caminho, mas nunca se chega de fato naquela satisfação como se idealiza.

Algumas religiões orientais (dito de forma bem reducionista, pois as religiões orientais são certamente muito diversas) têm uma visão diversa sobre a felicidade. Algumas pregam que se deve abrir mão do desejo para uma vida feliz, e o exemplo mais icônico é o Budhismo. Se desapegar do desejo leva a ter muita serenidade e uma quase indiferença à realidade. Mas esse desapego exige muito treino, é necessário não se desesperar mesmo diante de situações altamente desesperadoras e focar no aqui e no agora. Há todo um treino em que as pessoas adeptas realmente buscam situações naturalmente estressantes e se colocam em posição de não reagir a elas, quem nunca viu a célebre imagem de um homem meditando sob a gelada queda d’água de uma cachoeira?

Há, por outro lado, em nossa cultura, uma tradição ocidental refinada que vem dos antigos gregos e que vai pregar que há sim a necessidade do desejo e da busca para a felicidade, mas que mais importante do que conseguir aquilo que se deseja, é o processo de busca. O que é perene é o prazer em PERCORRER a busca, a vida que vale a pena nessa visão é, não quando se tem sucesso e prazer sempre, mas quando se tem um SENTIDO ou algo a buscar.

O caminho do desapego todos devem estar minimamente familiarizados, e ele parece bem simples, e talvez seja, mas é bem trabalhoso e nada condizente com a forma como a sociedade contemporânea se organiza. Não desejar, abrir mão do desejo, viver com o mínimo e com o necessário pode até ser o mais interessante para algumas pessoas. Entretanto na sociedade como vivemos na maior parte do ocidente a busca impera sobre o desligamento do desejo.

Para se satisfazer somente na busca há uma série de elementos da vida que precisam estar em ordem. Quando se pensa em quantas coisas poderiam acontecer neste momento que acabariam com a felicidade de qualquer um, se percebe então que a felicidade requer que muita coisa esteja no seu “devido lugar” para que alguém consiga se considerar feliz. Entre essas coisas que precisam estar em algum tipo de harmonia (que não é a harmonia como pensada pelos gregos) para que uma pessoa se sinta feliz estão a estrutura física e genética, a personalidade, os valores, os hábitos de vida e as habilidades que se desenvolveram.

Dito tudo isso, talvez o foco sobre a felicidade seja mesmo algo mais temporal. De qualquer modo, quando dizer então que a vida vale a pena? Quando alguém poderia dizer que está mais feliz do que triste? Quando a vida é minimamente interessante de viver? Ou quando se pode dizer que a vida é melhor do que a outra opção?

Talvez, a reposta mais sensata para essa pergunta seja que a vida vale a pena e que há felicidade quando a pessoa em questão consegue dizer, genuinamente, que não gostaria de trocar de lugar com ninguém. Quando conseguir viver sem se comparar com os outros. E tudo isso depende da congruência entre os elementos da vida. E essa congruência geralmente requer muito trabalho.

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