A quem deseja iniciar um processo:

O que é preciso saber para iniciar um processo de análise? A resposta que dou é franca e clara: nada. Inclusive, quanto menos souber, melhor. O que não significa dizer que quanto mais ignorante melhor. A ideia é conseguir se desprender um pouco do que sabe. Afinal, se eu busco saber algo novo, preciso partir da ideia de que o que sei não responde, ou melhor ainda: o que suponho saber não responde. A queda da suposição de saber paira sobre o processo todo.

Se o pensamento for suficiente para dar conta do que para mim faz questão, então que diabos mais estou procurando? É preciso apreender essa ideia: o pensamento logicamente estruturado só dá conta do que é logicamente estruturado. A psicanálise vem visando justamente o que foge dessa pretensa estruturação. Quando eu sei o que eu preciso fazer, mas não faço, quando falo diferente do que pensei, lapsos, atos falhos, palavras trocadas, duplos sentidos e mal entendidos. O que foge da lógica comum, aqui se pode operar uma psicanálise.

“Não era isso que eu queria dizer”, mas foi o que disse.

“Não que eu seja ruim”, mas por algum motivo é concebível seja visto assim.

“Eu sei o que preciso fazer, mas não faço”, essa fala por si só deixa claro como a questão não é sobre entendimento lógico, não é só sobre entender, é algo além disso.

Onde o pensamento segue a ordem imposta fica encoberto o que foge da ordem. Quero encobrir o que de fato disse, e encubro explicando o que eu queria dizer; quero encobrir a ideia claramente concebível de que eu sou ruim com uma simples negação. É onde na fala escapa alguma coisa que eu logo quero negar ou deixar de lado, porque disse errado, porque soa feio, porque é ofensivo. Tudo isso é ativamente desconsiderado no que chamamos resistência. Há dificuldade em aceitar isso que não é esperado, e é sobre essa dificuldade que uma psicanálise é possível. A análise é uma análise das resistências.

O sonho foi um marco na ideia de trabalhar com o que ocorre na fala sem a devida premeditação. E é notório como até hoje comumente se pensa a interpretação de sonhos num sentido muito fantasioso e até absurdo, o que talvez mostre uma grande resistência (generalizada) em aceitar o que vem fora do controle do Eu pensante, elevar ao absurdo facilita o ato de deixar de lado. Interpretar um sonho não é atribuir significado diverso ao que nele apareceu, sonhar com cobra não significa que tem alguém te traindo (como a analogia que se faz ao dizer que alguém traiçoeiro como uma cobra) e nem nada relacionado ao pênis (como uma analogia anatômica entre a cobra e o pênis). Cabe aqui dizer algo dessa figura de linguagem, o que é uma analogia? É um “como se fosse”, e isso já deixa bem claro que não é. Se é “como se fosse”, então não é, logo não é disso que se trata.

A interpretação incide sobre O QUE se diz e sobre COMO se diz do sonho, ou de qualquer outro assunto. Talvez a cobra esteja deslocada de qualquer significado imagético ou comparativo, e todo esse simbolismo esteja de fato encobrindo algo muito mais simples e provavelmente mais difícil de aceitar. E se cobra for um verbo? Quem cobra? Trata-se de um exemplo didático, mas não menos valioso por isso. É uma ideia ousada essa de incluir e aceitar os próprios deslocamentos da linguagem no discurso.

Um chiste produz o efeito de riso justamente por esse significado diverso do esperado, a gente ri do sentido que é recalcado, daquele sentido que se exclui ao falar seriamente, porque não pode rir ali. Isso marca exatamente a ideia de que há que se excluir algo para que a vida em sociedade seja possível. Daí nosso mal estar na civilização. Há que se deixar algo de lado para manter uma boa convivência, com isso perdemos muitos sentidos daquilo que falamos e do que escutamos. Uma psicanálise é inclusive o lugar de escutar isso que em outros lugares por não ter espaço muitas vezes vira sintoma, e percebemos como algo que não tem sentido, pelo menos não ali onde aparece.

Assim temos que a psicanálise incide sobre o que não se sabe, e o não saber é essa a via do buscar saber. O que é recalcado, e aqui podemos pensar no sentido recalcado, é deslocado, volta, ressurge. Mas ele pode ser escutado de forma mais consciente, ou menos sintomática. E é a isso que se propõe uma psicanálise.

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